Desumanização Funcional

Existe uma área dentro das empresas que quase nunca pode falhar emocionalmente.

Uma área que precisa ouvir sem absorver.
Precisa acolher sem se envolver.
Precisa ser firme sem parecer fria.
Precisa ser objetiva sem ser chamada de grossa.
Precisa resolver problemas que ela mesma não criou.
E, ainda assim, sair da sala sorrindo.

Essa área é o Recursos Humanos.

Curiosamente, talvez seja uma das áreas mais emocionalmente sobrecarregadas dentro de uma empresa e, ao mesmo tempo, uma das menos enxergadas como composta por seres humanos.

Porque, em algum momento, deixaram de enxergar pessoas dentro do RH.
Passaram a enxergar apenas “o setor”.

E é exatamente aqui que nasce a desumanização funcional.

A desumanização funcional acontece quando o profissional deixa de ser percebido como humano e passa a existir apenas pela função que exerce.

O RH deixa de ser:

pai;
mãe;
filho;
esposa;
marido;
alguém cansado;
alguém doente;
alguém com problemas financeiros;
alguém que também sofre perdas, luto, ansiedade, pressão e exaustão.

E passa a ser apenas:
“o RH”.

O RH que precisa resolver tudo.
O RH que precisa ouvir tudo.
O RH que precisa suportar tudo.

Mas que, aparentemente, não pode sentir nada.

O colaborador entra no RH carregando dores pessoais:
consignados acumulados, problemas familiares, separações, pensões, crises emocionais, conflitos com liderança, ansiedade, desespero financeiro, frustrações profissionais.

E o RH escuta.

Escuta porque precisa.
Escuta porque se importa.
Escuta porque alguém precisa escutar.

Mas quase nunca alguém pergunta:
“E você do RH… está bem?”

Quando um colaborador de outra área está sério, cansado ou retraído, existe preocupação.
Perguntam se aconteceu algo.
Tentam compreender.

Quando é alguém do RH?
Normalmente dizem:
“Está de cara fechada.”
“O RH é mal educado.”
“O RH é grosso.”
“O RH acha que manda.”

Como se profissionais do RH não tivessem o direito ao cansaço.
Como se objetividade fosse falta de educação.
Como se firmeza fosse arrogância.
Como se o RH tivesse obrigação de performar equilíbrio emocional o tempo inteiro.

E talvez uma das maiores crueldades invisíveis dentro das empresas seja exatamente essa:
o RH se torna depósito emocional corporativo.

É no RH que as pessoas choram.
É no RH que as pessoas descarregam frustrações.
É no RH que chegam as reclamações.
É no RH que recaem os conflitos.
É no RH que pousam os desgastes entre líderes e equipes.

Mas… quem acolhe o RH?

Porque o RH também adoece.
O RH também leva problemas para casa.
O RH também sofre pressão psicológica.
O RH também recebe assédio.
O RH também é humilhado.
O RH também é maltratado.

Só que existe uma expectativa silenciosa de que o RH precise suportar tudo sem demonstrar nada.

E talvez isso aconteça porque o RH ocupa o lugar mais ingrato dentro da estrutura corporativa:
fica no meio da guerra.

Para muitos empresários, o RH “protege demais o colaborador”.
Para muitos colaboradores, o RH “protege demais a empresa”.

O RH vive no centro do conflito.
Nunca é visto como suficiente para nenhum dos lados.

Enquanto isso, muitos gestores terceirizam para o RH a responsabilidade de serem impopulares:

o RH demite;
o RH cobra;
o RH aplica medidas;
o RH comunica decisões difíceis;
o RH diz “não”.

E depois o discurso vem pronto:
“Foi decisão do RH.”

O resultado?
O RH vira o rosto do desconforto organizacional.

Leva a culpa até pelo que não decidiu.
É responsabilizado até pelo que desconhece.
É atacado até quando está tentando proteger a própria empresa e os próprios colaboradores.

E aos poucos, o profissional do RH aprende algo perigoso:
que demonstrar humanidade pode ser interpretado como fraqueza.

Então ele engole o choro.
Engole a exaustão.
Engole o burnout.
Engole o luto.
Engole o medo.
Engole a sobrecarga.

Porque o RH “não pode desabar”.

Mas pode.

E desaba.

Em silêncio.

A verdade é que empresas discutem saúde mental olhando quase sempre para todos os setores…
menos para quem sustenta emocionalmente a estrutura inteira.

O RH não é máquina reguladora de conflitos.
Não é parede de absorção emocional.
Não é saco de pancadas corporativo.
Não é inimigo.
Não é robô institucional.

São pessoas.

Pessoas que também chegam cansadas.
Pessoas que também carregam dores invisíveis.
Pessoas que também precisam ser acolhidas.
Pessoas que também precisam ser vistas além do cargo.

Talvez esteja na hora das empresas entenderem algo muito simples:
quando o RH adoece, a empresa inteira adoece junto.

Porque existe um limite para quanto tempo um ser humano consegue sobreviver sendo tratado apenas como função.

E esse limite se chama desumanização funcional.
E não, isso não é exagero emocional ou vitimismo corporativo.

Pesquisas recentes mostram um cenário preocupante dentro da área de Recursos Humanos:

90% dos profissionais de RH relatam sentir sobrecarga constante.
6 em cada 10 afirmam ter enfrentado problemas relacionados à saúde mental no último ano.
A maioria conhece colegas afastados por burnout.

Outros levantamentos ainda apontam altos índices de:
ansiedade,
esgotamento emocional,
perda de motivação,
fadiga psicológica
e burnout ocupacional.

Na saúde ocupacional, o RH aparece frequentemente associado a fatores como:
fadiga por compaixão,
conflito de papéis,
pressão contraditória,
sobrecarga emocional
e necessidade permanente de autorregulação emocional.

Em outras palavras:
o RH vive diariamente a obrigação de equilibrar emoções, conflitos, dores humanas, pressões empresariais e responsabilidades legais… enquanto quase ninguém percebe que existe um ser humano por trás do cargo.

Talvez por isso o adoecimento no RH seja tão silencioso.

Porque antes do burnout chegar, veio algo muito pior:
a desumanização funcional.

Aos meus colegas de RH meus sentimentos… atenciosamente Ana Pederiva

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